Domingo, Dezembro 24, 2006
vá-se lá tomar decisões... no NataL.
Katia Chausheva- as minhas irmãs terão os mesmos direitos e deveres perante ti. só na forma não pode ser assim. afinal não és mouro, que eu saiba... ou serás?
e ria. a bom rir a engraçada!
sorri. como um palhaço triste e assim andei até à véspera de Natal.
estava organizado o casamento.
nem nos véus. negros. tive eu opinão.
pior é que estava a gostar disso.
engano o de quem pensa que em mundo de muitas mulheres é o homem senhor.
malta. deixem-me rir!
elas são como os padres: sabem-na toda! mesmo!
em baixo à árvore ornamentada a pratas e a ouros casou-nos o pai-padre. e desejou-me sorte.
foi a primeira vez que me ri. ali. na cara dele .
nem piou.
a minha mãe não tinha sido convidada. não estava lá, portanto.
ah, mas as minhas mulheres sorriam. prenhes de mim e de uma alegria que me fazia pensar estar próximo de Deus.
urbangrey até começarem a chegar os convidados para a recepção...
não vi mais do que a ti. aos teus cabelos! depois disso ceguei.
que raio de presente de Natal!
que faço eu contigo, minha sardenta ruiva?
meu amor!
fim de um salto: Natal e família!
Segunda-feira, Dezembro 11, 2006
ena, homens!
não me perguntem o nome do album. agora já me lembro, mas nunca fui pedante. sei do que sei e pronto.
por isso vamos às verdades: de mulheres estava eu a começar a saber.
até da minha mãe. porra de vida!
"i can face the world!" o mundo e mais a feiticeira mor e mais a minha mãe! é dose de urso.
e como sempre fui um profundo defensor da natureza com uma perdilecção pelas macieiras, não ia deixar cair uma maçã em solo errado. podia e ia afectar a arquitectura paisagística.
caramba! esta saiu-me bem!
e já que a louva-a-deus me insinuara que seguisse o meu pai e, confiando eu nela quase tanto quanto nos políticos que oiço na TV, decidi contrariar as previsões de todos.
ela, a feiticeira, dizia ser o espírito da floresta. acreditei. via-a de caminho e de caminho, decidi papá-la como gato a ave distraída.
assim, de chofre, sem marcação escrita. já que era pai que o fosse mas... mandasse no destino a que o harém pensara ter-me condenado.
padres sabem-na toda! ouvi isso a um tipo na taberna e vai de aproveitar!
fui directo à estufa. por essa altura já cuidada e regadinha e, aguardei.
ou eu era o Mário Soares reencarnado, ou uma delas havia de aparecer.
Quinta-feira, Dezembro 07, 2006
Indigestão
luminous-landscapeeu sei. a culpa é minha até um fruto inocente como a maçã pode ser perigoso se devorado em excesso. mas o feito está feito. tenho é de sair desta.
estava eu nestas congeminações quando vejo um papel atirado pela ranhura da porta. era da feiticeira mor a marcar-me encontro na estufa depois de almoço. eu não sou medroso podem crer. mas correu-me um arrepio pela espinha acima.
- ná. pai de outro não! e logo dela!
ela era linda. e quente e essas coisas de que um homem gosta. um homem como eu. mas daí a deitar-me com ela e com o grupo das amigas dos feitiços ia um salto de canguru. só imaginava já a capoeira toda a correr atrás de mim de criancinha ao colo. a berrar pelo pai. não esperei pela quarta mana e fiz-me à vida.
por já ter outro par, por essa altura, atirei com os ténis para bem longe como se a praga que me seguia viesse deles.
e decidi mesmo ir à cata da minha mãe. afinal melhor que ela não podia haver para me aconselhar.
quando a vi mal a reconheci. parecia uma senhora nascida na cidade. o porte. a vestimenta. um doce a quem apetecia mesmo chamar mamã.
a minha louva-a-deus. Deus a louvasse! nunca imaginei poder amá-la tanto. ao que a necessidade e o desespero nos podem levar...
- mãe! ó mãe! espere aí.
nem se virou. não se lembraria já de ter parido um filho? fosse de padre ou não, era o que eu era, porra!
- baixa o sonoro que não estás na aldeia! só me faltava este! estavas mal no castelo? querias vida melhor? pois já a tens. o que é que queres agora? mais legos ou uma trotineta? pede agora que hoje estou de maré.
falou de uma assentada sem perder o fôlego
engasguei-me eu literalmente com a saliva até entrar em quase convulsão.
- baixa a cabeça. deita isso para fora.
nem uma pancadinha nas costas para apoiar. levaria dali alguma coisa? a dúvida subia ao ritmo do engasganço. até que por fim consegui respirar.
Quinta-feira, Novembro 30, 2006
valha-me o céu.
andei para ali como animal abandonado nas férias em estrada erma.
não conseguia imaginar um pirralho ranhoso ou não a agarrar-me as calças e a dizer aos berros - ó pai! - é que nem morto!
tinha de haver uma saída. fui até à minha terra. sem avisar ninguém. acreditem ou não, faziam-me falta as saias da minha mãe. não seria uma doçura de gente mas tinha sempre solução para tudo.
bem, a última tinha sido dar de sola mas eu também andava a pedi-las há uns tempos e ela tinha o direito à vida dela.
a aldeia que já era vila, soube-me a gemada com cerveja. coisa que eu adorava quando o frio apertava por aquelas bandas.
Segunda-feira, Novembro 27, 2006
como um pássaro
bem, convenhamos que as sardazinhas da ruiva me fizeram aprender preâmbulos. como ir descendo a boca de ponto em ponto escuro pelo corpo branco até a enlouquecer. gosto de deixar uma mulher a sufocar de tal maneira que quase mendigue que lhe apague a chama. sinto-me rei e senhor desse momento. e dou-me, até poder.
Domingo, Novembro 26, 2006
hoje uma flor.
Quinta-feira, Novembro 23, 2006
com elas ou sem elas
aí, as fêmeas entraram em histeria. uma daquelas que a mim teria sabido que nem ginginha com elas se não fosse a apatia em que vivia.
davam-me tudo. ou quase. e eu em pasmo. sem reacção. sem um lamber de beiços natural com tanta guloseima.
fordmanf1
o camafeu deu-me uma bíblia e um terço bento. se calhar tinha sido o meu pai a abençoá-lo. aí deu-me uma certa vontade de rir. mas fiquei pelo certa vontade. rir que é bom, nada.
elas deram-me ténis das melhores marcas e cores. nada.
estava decidido a desistir de enriquecer ali e até de saber o que me levara ao castelo. estava decidido a migrar mas sem rumo. que rumo até as aves têm.
disse-lhes isso. uma por uma. até ao velho mordomo avisei entre dentes como quem lhe rosna. assim ia informar a dona e eu não ia ter de a aturar.
foi então que a virgem que o fora até eu lhe fazer o favor de lhe acabar com a má sina, me apresentou uma ruiva. isto sem mais aquelas. assim, de sopetão. toma lá e não dês cá nada. parecia ela dizer. só não te vás embora senão quem volta ao degredo sou eu.
Adam Orzechowski
bem. eu romântico andava. mas morto não. e a minha curiosidade sobre as ruivas estava pela altura do himalaia.
fiquei. por mais um tempo. numa de logo se vê.
os sacríficios que um homem faz para agradar às mulheres!
agora vou trabalhar para o jardim que já ando há tempo demais sem ar puro e ainda fico com cara de fantasma.
Segunda-feira, Novembro 20, 2006
ando. às escuras.
não sei o que me deu ontem quando vi uma das irmãs, logo a mais velha, à espera, no meu quarto.
debitei-lhe toda a minha paixão pela ruiva desconhecida.
a louca ria. só ria. ria e esperava a sua vez. é um raio de uma qualidade das mulheres: esperar. devem ter aprendido isso ao longo dos tempos na espera de parir.
esperam e ganham sempre com isso. pelo menos esta ganhou.
quando a vi rir. de mim. atirei-me a ela que nem gato a bofe! nunca ela me tinha sabido tão bem. nunca.
mas eu queria-a a ela ou queria vingança do rir dela ou queria a moto? digam-me vocês que estudaram. digam lá!
a moto!
pois. vi-a nas mãos de um gorila que apareceu lá para as sessões de magia. voou com uma das bruxas-sem-vassora naquela máquina.
*
este cheiro que trago nas narinas é teu. só teu. sabias? e nem sequer me aproximei de ti.
não tem nada de velas pretas. rendas pretas. cheira a pele branca. a olhos lavados. cheira a esses cabelos quase encarnados. cheira a...
cheira a uma pureza-desdém e sem nenhuma oferta. é disso que sem conhecer tenho saudades.
qual será o odor dos teus cabelos?
*
vou ter de descobrir o que há em comum entre mim e esta gente. porque foi que o padre-pai me mandou para cá? antes disso não salto. antes não!
*
mas é urgente reencontrar-te, mulher!
ou nunca serei homem digno desse nome.
Quarta-feira, Novembro 15, 2006
rir.
Birkir Ingibergssonqueriam rir do louco. riram. mas desta vez pagaram.
se eles cresceram eu não ia minguar. cambada de tratantes! tinha de voltar nem que fosse uma vez para me vingar.
e o segredo? conta!
palermagem. segredos e mistérios que os peçam ao meu pai ou a outro palhaço da mesma profissão.
de que e que eu estou a rir?
da minha infância com eles a correr atrás de mim?
filho-de-padre! filho-de-padre!
disso não é. parece que ainda os oiço.
john rosenthal
e eu a virar as costas e a não querer ouvir. e a fugir e a querer acreditar que se um padre representa Deus então eu era mais filho de Deus que os outros eram.
a querer. a querer. a querer. até subir para uma cadeira para chegar ao céu. fugir para lá!
john rosenthal nenhum braço estendido. nem um piu. penso que se Outro fosse parceiro de se fazer ouvir havia de dizer:
- vai chamar pai a outro e deixa-me dormir.
vou mas é parar com as lamentações e esconder o dinheiro. anda mais malandragem por aí que gente séria. eu quero a moto. sobre isso não estava eu a brincar.
a esta hora já tenho a porta do curral aberta para o garanhão entrar. pelo menos por lá fornicação e manjedora não me faltam. com céu ou sem ele hei-de sobreviver.
o segredo. a aposta.
mas qual segredo homens?
olha lá, não saias de fininho que ainda não pagaste, tu aí!
ah. pois. o segredo que eu ia desvendar do meu pai-padre ser um milagreiro...
então reparem bem. o padre era de carne e osso. a minha mãe também. e eu ainda que não pareça, mas é só por disfarce, sou o super-homem.
Terça-feira, Novembro 14, 2006
primaveras no outono
urbangrey
urbangrey.Domingo, Novembro 12, 2006
com pouco trabalho. no jardim.
Jean-Batiste Degeconsegui concretizar o sonho que me levara até ali, uns tenis nike.
comprei-os bem branquinhos contra a vontade do mulherio de preto. que se danassem! o esforço fora meu. e se o jardim ia devagarinho já o fogo que as incendiava acendia e apagava como um pirilampo noite a noite e mesmo dia a dia.
o mágico era eu.
urbangrey Quarta-feira, Novembro 08, 2006
exaustão.
vejam só ao ponto a que cheguei. farto de preto.
Rui Rocha Reisera só apagarem as velas cor da roupa e já eu estava com a minha vela em riste a demontrar que saía ao meu pai.
as mulheres não gostam de partilhar parceiros mas gostam de se gabar tanto ou mais do que nós. foi a desgraça aqui deste freguês
podia ir-me embora. é bem verdade. mas que querem, eu gosto de maçãs!
Segunda-feira, Novembro 06, 2006
fadas. bruxas.
urbangreypor essa altura não te conhecia e aos teus olhos e aos teus cabelos cor de chama. devia ter-te adivinhado, mas eu era novo em tudo e de amor nem o som. o cheiro.
Sabine L sentaram-se em círculo. nuas. nuas! cantaram coisas numa língua que eu não entendi ou não ouvi bem, da gruta onde estava.
tinham um punhal. velas. insenços acesos. faziam oferendas sei lá eu a quem. de frutos e flores. ah, e tinham água. foi o que no meio de tudo mais estranhei. na missa é vinho. ali era água. por serem mulheres? não. elas bebiam.
mas o pior disto ainda está para vir. quando eu não esperava que houvesse mais nada, levantou-se a minha. a que me levara para me saber lá. e abram a boca: agarrou a lua. entre as duas mãos.
não sei como não dei um grito nessa altura e corri dali.
pensei duas vezes e fiquei no canto. sem entender porquê tinha-me despido. e repetia cada gesto dos que elas faziam.
o que um homem faz com mulheres assim!
Sexta-feira, Novembro 03, 2006
salto umas investidas.
entretanto, além de cortar o matagal da estufa aprendia-se pouco por ali.
nicole cherubini
excepto a manipular e guardar objectos para lá de inúteis mas bonitos, não me recordo de nada que valha ser lembrado. isto até ao dia em que a mulher vestida de preto, a Eva, (raio de nome!) me deixou um bilhete por baixo da porta a marcar dia e hora no jardim. esperei uma daquelas noites de fundir até ferro.
nada disso. o encontro era no meio da mata. junto ao altar velho na entrada de uma gruta de não sei lá que século. coisa abandonada há muito tempo. antes mesmo de as donas serem elas.
at Opacity
já por lá tínhamos andado em boas fainas. daí não ter estranhado. com imolações daquelas já eu podia bem. pior foi a conversa que seguiu.
- tu hoje, haja o que houver, não fazes nada. assistes porque eu gosto de te saber aqui. mas nem tentes ser visto.
- mas se somos só dois...
- isso é agora. vai para a gruta e fecha a alma a cadeado. a alma e sobretudo a boca. sais só quando eu disser.
e daí em diante só vi chegar mulheres. de preto. todas. eu gosto de mulheres. pois mesmo assim havia pelo ar algo que me assustava. a mim! pode isto ser?
Terça-feira, Outubro 31, 2006
meios caminhos.
rapaz para todo o serviço, pensei eu. mas ainda lhe tinha o paladar na boca e não reagi com a brusquidão que ela merecia. acompanhei-a ao longo do corredor de gelar uma sopa a ferver. isto sem me lembrar que ela era neta da velha-camafeu . a gente não se lembra de nada quando está convencido que funciona bem e é desejado. asneira.
dei-lhe um beijo na testa e fui arrefecer-me para o jardim . aquela cena do beijo casto faria rir até o meu pai-padre.
estava eu a sentir-me acocorado a meio caminho, quando me veio aquela sensação de estar a ser olhado. pesquisei tanto quanto a falta de luz por ali permitia e dei de caras com a desmaiada do dia anterior a espreitar-me.
Lara Jadeaquilo era mais sofisticado. deu para ver só pela pintura dos olhos e os contornos da boca. vestia tão de escuro como a noite. daí não a ter visto na passagem. o que me queria não fiquei para saber. passou-me sei lá o quê pela cabeça e atirei-lhe um:
- buuuh!
de nem espantar pardais. só para me rir. estava a ficar nervoso com a procura. não me envergonho de o confessar agora. voltei para o quarto e demorei muito a adormecer. tanta água depois de uma vida de secura é no que dá.
Segunda-feira, Outubro 30, 2006
não eram três.
olhou-me como eu olhei a outra, a que pulou para o alto e que, parecia já ter passado uma eternidade, me desvirginara na casa da minha mãe.
- sou margarida.
Christiane Pinnekamp podem rir a vontade. até eu me riria se não me estivesse a arrepiar todo enquanto conto.
eu ali. garanhão de crina ao vento. a ser o primeiro. pela primeira vez.
o trabalho
Volokin limpinho já. fui levado pelo velho, à zona nobre do castelo. primeiro encontro com o camafeu.
encontro à distância e ainda bem. é que se lhe vissem o tamanho temeriam como eu, um encontrão com ela.
- vens da parte do meu sobrinho e só por isso deixo cá entrar um rapaz novo.
com que então sou da família e tu nem sabes! - eu a rir cá por dentro. era a minha vingança contra aquela mania de me chamarem rapaz.
- como vens da aldeia começas por limpar a estufa, que foi abandonada quando o meu filho teve a ideia absurda de se mudar para a cidade. de ervas deves saber.
a velha estava a por-me estragado. de ervas entendem carneiros e os burros. lembrei-me dos encontros da véspera e resisti a saltar dali naquele instante.
fui despachado. sua fealdade excelentíssima mal me olhara durante a conversa.
o resto da manhã passei-o na estufa velha.
um belo esconderijo para acabar de dormir.
de salário nem uma palavra! - lembrei-me, antes de cair ferrado com a cabeça sobre uma almofada de hera.
nessa manhã pouco aprendi. valha a verdade. mas ainda tinha todo o resto do dia.
eu tenho sempre de aprender. seja o que for. para isso é que se é novo. ou não será?
Sábado, Outubro 28, 2006
primeira noite.
M Karez não é força de expressão coisa nenhuma. quase tropecei num rosto de mulher que encandeava com o ohar, ao levantar-me daquela posição patética, dobrada, em que estava para não sujar as calças de fazenda.
gaguejei boa noite e ela a sorrir. nem piu. sorria e prometia qualquer coisa. a si mesma ou a mim?
não sabia nessa altura e não sei hoje ainda. mulher é bicho de muitos mistérios. mas uma coisa fiquei a saber pela noite fora: quem era eu.
homem não haja dúvida. e se frustrado por jantar na cozinha sem a ver, muio decidido a não continuar assim por muito tempo.
Sexta-feira, Outubro 27, 2006
o castelo. os ricos.
ArminB não tive muito tempo para pensar. já que tal como se escondem, expõem-se.
os pensamentos que me assaltavam não são de se contar.
de homem, nem vulto. estaria eu no céu? ou no inferno?
a segunda pergunta surgiu-me quando um velho me deixou entrar e dei de caras com um quadro pregado na parede. foi o arrepio.
Volokin
se aquele ser ainda era vivo ou tinha deixado casta, estava frito. uma mulher vestida de bonita e, feia como um travesti de carnaval barato, emoldurada a ouro.
- quem é?
disse eu ao velho que acelerava à minha frente escada acima.
- é a senhora d. luisa , a patroa. a avó das meninas que aqui moram com ela e que são órfãs. herdarão tudo isto. pobre da fortuna!
ele preferia a velha. era de ver.
deixei de pensar nos ricos e decidi passar definitivamente a não dar atenção senão às ricas. toda a minha atenção.
Quinta-feira, Outubro 26, 2006
o segredo
o segredo era outro. eu não ia dizer que o padre era meu pai. simplesmente porque não podia. provas não tinha e isso não ia pagar-me o blusão de cabedal. um padre a ter filhos nunca foi notícia de relevo. já a não tê-los, sim.
Darren o segredo era o padre ser homem capaz de milagres de vulto. coisa que o obrigava a ter vida a condizer. vida de santo. e o padre não queria. queria era a minha mãe.
ela deixou o banco para trás. ele o sino da igreja. eu deixei o pai-que-não-era-pai abandonado. como cristo foi na hora de morrer. sem uma flor na poça ou campa. tanto faz.
Rodney atravessei a ponte com o cartão que me apresentava como gente capaz, aos donos do castelo. ricos. e recordem: rico era aquilo que eu tinha decidido ser.
as pontes no campo não vão dar à cidade. não faz mal. descobri isso dois dias depois de trabalhar por lá, tipo faz-tudo a gente de dinheiro.
o sexo na floresta é bem melhor que em cama de pensão. garanto eu.
Geoffroy Demarquet gente esquisita. mas se é faz-tudo, fiz.
quase tropecei nela ao passar o portão. mas a certeza de que aquilo era pedaço a pedir mordam-me, tive-a mal a vi.
ah, o segredo? pois. disso falo no fim. se tiver tempo.
Quarta-feira, Outubro 25, 2006
a fuga.
a certeza veio-me em casa quando vi o banco vazio frente à janela. ninguém costurava ou olhava o horizonte numa eterna espera.
Ewa Wijatauma carta na mesa com a confirmação do que eu fingira só ter descoberto na noite da véspera.
querido filho. quis poupar-te a verdade mas fiz mal. a verdade é como álcool em ferida. arde mas desinfecta. devia tê-la usado.
sobre quem pensavas ser teu pai pouco tenho a dizer. morreu afogado. nada de glorioso. na última bebedeira tropeçou e afogou-se numa poça de água porque caiu de borco.
o teu verdadeiro pai deixa-te aí um cartão de apresentação para arranjares trabalho. tem direcção e tudo. é só apareceres lá.
quando baixar o pó que levantaste na igreja, digo-te aonde estou.
boa sorte!
beijos.
mãe.
e pronto. aí estava eu entregue ao mundo e órfão de padre e mãe.
o que me enfurecia era ir ela com um salto de avanço e eu ainda parado. ali.
chovia muito.
Terça-feira, Outubro 24, 2006
salto
graham ramsayestende-me a mão. nada disto tem a ver contigo e os teus cabelos. sei demais. é passado. foi passado. qual é o tempo do verbo? devia ter estudado mais. ou não?
sonhei uma mulher a parir em encarnado a volúpia da fé.
a maioria das mulheres precisam da fé para resistir à fragilidade infinita dos homens.
waltondesign no sonho saltei (ou não seria sonho?) a autoria da minha própria vida. ser filho-de-padre era tão irreal como simplesmente ser. e sentia-me calmo. quase amado. afinal tanta gente não nasceu por razões semelhantes. eu estou vivo.
que grande superioridade isso me dá sobre os filhos abortados de outros padres!
devia ter um sorriso pateta colado à cara quando o sacristão me sacudiu e acordou.
- estás à espera de quem?
- do padre?
- esse não volta. faz-te à vida que eu vou fazer o mesmo. e desta é para a reforma. venha lá quem vier não aturo mais nenhum.
- e a minha mãe?
- sei lá! ele não foi sozinho mas se a que ia com ele era mãe de alguém, não é assunto meu.
esbateu-se-me o sorriso apalermado e levantei-me a custo. saí para a rua. estava frio e eu tinha fome. teria ainda mãe?
Segunda-feira, Outubro 23, 2006
a minha cabeça.
Sábado, Outubro 21, 2006
intenções. pois é.
- o teu pai? está no cemitério grande parvo. isso é lá pergunta que se faça a um homem de bem?
de bem seria mas que se limpou à pressa demais quando lhe falei de algum amor da minha mãe lá no passado, também é verdade.
- vivo na sacristia e não é a mim que elas se confessam.
toma e cala essa boca - foi só o que eu consegui ouvir além de: filho-de-padre. que praga! estava a ficar obsecado. fui directo à igreja pior que toiro saído do curral.
e em lugar do padre que eu sonhara, acobardado face à minha coragem, sai-me um tipo todo poderoso a benzer toda a gente e a olhar para mim. a medir-me. como quem diz - avança tu que eu espero mas pago para ver.
encostei-me à pia de água benta a congeminar na maneira de transformar o que sabia num blusão de cabedal. o preto. ou num emprego melhor com que o pagasse.
é que se ser filho-da-dita era já mau, sê-lo com o casaco velho era pior.
respirei fundo e avancei para a sacristia com a intenção absoluta de me ajoelhar quando ele entrasse e debitar tudo, em confissão.
Quinta-feira, Outubro 19, 2006
culpa da Macieira.
Doug Gilbert uma mulher que até aí parecia rezar, olhou-me com olhar aliviado.
afinal a velha era bonita ainda...
mesmo assim levou de supetão com a história do pai-padre, que eu trazia atravessada na garganta desde os tempos de jogar à bola pela rua.
- mas é verdade ou não? diga-me lá! eu tenho mais que o direito de saber!
entre graças a Deus que não te aconteceu nada, repetidos, oiço-a dizer quase no mesmo tom:
- tu agora tens é direito de ir para a cama e deixar-me descansar em paz. nasceste ou não nasceste? fui eu que te pari. isso garanto. dei-te a vida. explicações a bêbados nunca dei nem vou começar hoje. queres que te faça um chá para amanhã não estares agarrado à barriga?
assim. sem se ralar. um tudo por igual de impressionar um monje habituado a ladaínhas.
e eu de queixo caído. em frente dela que já tinha deixado de rezar há muito tempo e fervia água para a enfiar pela goela que teimara em se lhe abrir.
devo ter adormecido não sei onde mas acordei na cama.
não antes de sonhar ou não seria sonho? com um homem igualzinho ao padre da aldeia, a tentar a minha mãe como um belzebu chifrudo. a tentar. a tentar. até consegui-la. até conseguir- ME.
- filho de um corno!
o grito acordou-me. era o meu grito.
nada tinha terminado ainda.
apressei-me a beber o resto do chá que sobrara na chaleira. tinha chegado a hora de me confessar.
Terça-feira, Outubro 17, 2006
não quero.
andolinialmocei na pensão. a vista paga-se. tudo se paga neste mundo. tudo. comi bebi olhei a água a correr lá em baixo como se fosse um príncipe. paguei.
era príncipe que eu queria ser. mas não ali. noutro lugar. onde não me chamassem filho do padre. sem eu saber porquê. só por chamar. só para me obrigar a fazê-los engolir o insulto a murro.
foi nesse dia que decidi que tinha de saber de onde isso vinha. saltei dali para fora decidido a falar com o padre e a minha mãe.
havia que a calar por não levar dinheiro.
Domingo, Outubro 15, 2006
um salto
para a minha mãe só o padre tinha nome. os outros eram aqueles e já está.
havia sons mais estridentes na montanha. gritos de aves. sacudidas fortes dos ramos das árvores mais altas. dei por isso.
na farmácia negaram-me o serviço preferido.
- ainda não sabes? ela subiu ao topo do casebre e atirou-se para o penhasco. foi por ali abaixo a rebolar.
tremi como uma palha ao vento.
as mãos dela vieram socorrer-me. mãos de cega a tatear-me todo até onde eu nem sabia existir.
sorri. tinha aprendido a palavra saltar.
Sábado, Outubro 14, 2006
fui lenhador
Lilya Cornelitinha de trabalhar. estudar? ali para quê? e tinha de por o pão na mesa fria. também podia ter-me ido embora e deixado a minha mãe ser louva-a-deus onde ele a ouvisse .
sei que não foi por bondade que me dei ao trabalho de trabalhar. foi por causa de um poster na parede. com umas pernas caídas numa oferta, que vê-las só por si fazia-me homem a qualquer hora do dia.
cortar árvores é fácil. vê-las cair com estrondo já não é. tive sorte em saber ler. empreguei-me na farmácia da terra. nem aí precisava da leitura para nada porque só fazia entregas ao domicílio.
na primeira entrega tive sorte de principiante. a mulher vivia longe do povoado e eu perdi-me. ela ofereceu-se para me levar a casa.
usava uma bengala sem ser cega, tinha sede quando lá chegámos. disse-lhe que entrasse. a minha mãe saiu. abençoada hora!
-não fico nesta casa com uma mulher de má fama.
fiquei eu. não era cega, mas todo o meu corpo ficou a saber como os cegos tocam quem anseia por eles. a troco de um copo de água. e de muitos gemidos de um prazer tão novo como eu.
Sexta-feira, Outubro 13, 2006
a aldeia.
a minha minha mãe é uma louva-a-deus, por isso tive pai por pouco tempo. coisas da natureza.
a casa tinha uma cozinha e dois quartos de madeira, pequenos.
não havia muitas raparigas. só mulheres feitas. pouca gente nascera quando eu nasci. vim por certo fora do tempo já.
havia na minha casa uma fotografia de uma rapariga com uns cabelos lindos. foi a minha primeira namorada.
sbdm zhu
passava horas encantadas a olhá-la.
um dia a louva-a-deus disse-me assim:
- gostas muito dela , não é filho?
- gosto. namoro-a. quando formos grandes havemos de casar.
- cala-te maldito! isso é pecado! podes lá namorar a tua irmã?
mas eu não tinha irmã. vivia na cabana de madeira sozinho com ela e ela tinha-me a mim como quem não tem ninguém.
aprendi que pecava por amar os cabelos de uma irmã que não tinha.
aprendi a gostar mais de cabelos de raparigas e que era muito doce o sabor do pecado. naquele dia.
salto o sonho










































